sábado, 25 de setembro de 2010

Deixem-se de merdas!

O meu avô materno, conhecido lá na terra por Ti Zé Cantoneiro, como muitos da sua geração, era homem pouco instruído. Fosse hoje e teria entrado para um qualquer curso universitário depois de meia dúzia de meses a frequentar um Centro Novas Oportunidades, mas apenas aprendeu a escrever o seu nome e a distinguir os algarismos, já adulto, para poder aceder à Função Pública. Mas adiante, que isso são contas doutro rosário. Homem de poucas palavras, a menos que se falasse do seu amado clube, oportunidade para largar a enumerar glórias passadas e a desancar no arqui-inimigo do outro lado da 2ª Circular, tinha na vida uma postura prática e ideias desempoeiradas, que o levavam a cortar cerce conversas da treta com um rotundo “deixem-se de merdas!”.


Todos os dias sou bombardeado, é essa a expressão que me ocorre, com brados de ministros, líderes da oposição, deputados e candidatos presidenciais. Depois levo com urros de ex-ministros das finanças e economia, doutos professores, comentadores políticos e “opinion makers”, gritos de alarme de líderes sindicais e patronais, gestores bancários e, “last but not least”, ainda tenho que ouvir as sirenes de Bruxelas, da OCDE e do FMI. Todos citam dados, estatísticas, números e valores elevadíssimos, falam de taxas de juro, “spreads”, capacidade de endividamento, duodécimos, taxa de desemprego, poder de compra e outras tantas pérolas da linguagem do dinheiro. Estranhamente, nunca bate a bota com a perdigota, cada qual a discordar do interlocutor, todos postados em altas e ebúrneas torres de sapiência, alicerçadas em pilhas de relatórios do INE, do Banco de Portugal, da UE ou de uma qualquer correctora.


Tanta sapiência junta não conseguiu prever o estouro da bolha especulativa dos mercados imobiliários e financeiros, a crise económica, a recessão, tendo-se limitado todos a fazer prognósticos depois do fim do jogo. Perante isto, pergunto a mim próprio que capacidade terão agora para encontrar soluções capazes de inverter esta espiral descendente em que nos encontramos. Ferramenta essencial para combater a crise em Portugal é a elaboração e aprovação de um Orçamento de Estado pragmático, o mais consensual possível e, acima de tudo, exequível. E que temos nós? A sarrabulhada do costume, com toda a gente a dar-se ares de dama ofendida na honra ou a tentar gritar mais alto que o vizinho, coisa a que já estamos habituados, mas a que, nesta conjuntura, a bem da todos, conviria pôr termo.


É chegado o tempo de pôr de lado agendas pessoais, questiúnculas partidárias, ódios de estimação, pactos secretos, alianças dúbias. É tempo de arregaçar mangas e deitar mãos ao trabalho. É tempo de, por uma vez que seja, os números e as estatísticas coincidirem, as políticas serem claras, uníssonas e terem objectivos de médio e longo prazo. É tempo de esquecer a data de eleições que se avizinham e deixar de contar espingardas. É tempo de a expressão "sentido de Estado" deixar de ser uma frase feita de sentido oco.


Ou seja, como diria o Ti Zé Cantoneiro, é tempo de se deixarem de merdas! E façam-me um favor: deixem de ler estatísticas e comecem a ler o “Borda d’Água”: também raramente acerta nas previsões, mas, pelo menos, daí não vem mal ao mundo.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Presunção e água benta


Recebi hoje via correio electrónico, gentileza da Secção de Relações Públicas e Informação da Câmara Municipal de Nisa, a Nota de Imprensa nº 57, que nos dá conta da presença da celebérrima, pelo menos cá no burgo, “Valquíria Enxoval” no “Portugal Tecnológico 2010”, evento a decorrer na Feira Internacional de Lisboa. Segundo a Nota, a obra da autoria de Joana Vasconcelos e propriedade do Município de Nisa, que tem estado entregue aos ácaros e à torrina do sol nas Termas de Nisa, está integrada numa exposição sob a temática “Qualidade e Inovação na Região Alentejo” e representa a inovação em termos de artesanato nisense.

Consultada a página electrónica do evento, fiquei a saber que o mesmo é “a maior mostra nacional de tecnologia e inovação” e pretende apresentar “ainda mais soluções inovadoras, com destaque para os projectos de índole tecnológica que contribuem para o sucesso do País e das Regiões, para o bem-estar das populações e para o aumento da capacidade exportadora da economia portuguesa.”

Como diziam os outros, esmiucemos lá isto:

a) "solução inovadora" de "índole tecnológica" - solução inovadora em quê? Nas técnicas do artesanato nisense? Que eu saiba a coisa foi feita à antiga portuguesa: máquina de costura, agulha e dedal.
c) "contribuem para o sucesso do País e das Regiões, para o bem-estar das populações e para o aumento da capacidade exportadora da economia portuguesa" – estou mesmo a ver a região a sair do marasmo e o país a dizer adeus à crise, dando finalmente o grande salto em frente, graças a miríades de valquírias e quejandos. Isto para não falar do bem-estar geral de que goza hoje a população do concelho.

Esmiuçada a coisa, não entendo a presença da “Valquíria Enxoval” neste evento, uma vez que em nada corresponde aos objectivos a que o mesmo se propõe. Está lá, de novo pendurada, como mero bibelot (carote, mas ainda assim apenas um bibelot), sendo perfeitamente indiferente que lá estivesse esta coisa ou outra qualquer. Também não entendo a necessidade da emissão deste comunicado, a menos que o objectivo do mesmo seja calar os críticos da aquisição da obra, entre os quais me incluo, assim ao jeito de um ”estão a ver, estão a ver, a nossa menina sempre serve para alguma coisa, até foi a Lisboa a uma exposição!”.


Acreditem, se quiserem, mas esta situação toda só me traz à memória o filme “A Canção de Lisboa”, em que o Alfaiate Caetano (António Silva), apesar de sua filha Alice (Beatriz Costa) não ter grande jeito nem para o canto nem para a dança, consegue fazê-la eleger Miss Castelinhos. E como gosto de histórias com moral no fim, lá vai: "Presunção e água benta, cada qual toma a que quer."
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foto: http://www.cm-nisa.pt/

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Monólogos incoerentes.I

Amigo chinês, não estranhes a pergunta, mas nesse mundo inteiro de coisas que abarrotaste não terás por aí um pano que limpe o pó da alma? E vê se me encontras uma vassoura de cabo comprido, que dê para limpar teias de aranha nos cantos do pensamento. Ah tens? Quanto custam? 3 euros cada? Podes embrulhar e não preciso de factura.

Vive la France II

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imagem: jc