sábado, 27 de fevereiro de 2010

Sessão Ordinária da Assembleia Municipal de Nisa


O Regimento da Assembleia Municipal de Nisa, aprovado em Sessão Ordinária de 25 de Fevereiro de 2002, concede, no seu Artigo 19º, um período de “Intervenção do Público”, com a duração máxima de 30 minutos (prorrogável por mais 30, se o número de intervenções o justificar, atribuindo a cada cidadão 5 minutos de intervenção, sendo necessária inscrição prévia (neste particular o Regimento é algo vago: infere-se que a inscrição seja feita junto da Mesa da Assembleia, mas quando?), referindo nome, morada e assunto a tratar.

Pretendendo obter alguns esclarecimentos, cuja descrição aqui não cabe, participei ontem na Sessão Ordinária de Fevereiro da Assembleia Municipal, que se realizou no Auditório da Biblioteca Municipal de Nisa. Para saber quando poderia intervir, dirigi-me ao local indicado, pouco antes da abertura dos trabalhos, de modo a consultar o respectivo Edital. Consultado este, verifiquei que o período reservado à intervenção dos munícipes constava do seu ponto 8, último acto da Assembleia. Assim, e porque outros assuntos tinha a tratar, não assisti à abertura dos trabalhos, pretendendo regressar mais tarde.

Dirigi-me de novo ao Auditório da Biblioteca de Nisa cerca das 21:00 horas. Aí chegado, alguém me perguntou ao que vinha, respondendo que pretendia solicitar alguns esclarecimentos aos eleitos. Para minha surpresa, fui informado que tinha decorrido uma votação, no início dos trabalhos, antecipando o período de intervenção dos munícipes para o início da Assembleia, alterando o que constava da Ordem de Trabalhos publicitada.
Meus caros eleitos da Assembleia Municipal de Nisa: não se altera a Ordem de Trabalhos de uma Assembleia no decurso da mesma, se isso prejudicar, de forma evidente, os direitos de quem nela pretende participar. Por maioria de razão, isso não deverá ser feito se ainda por cima o ou os prejudicados em questão, neste caso os munícipes, não podem participar dessa votação.

Sou de opinião que o período de intervenção dos munícipes deverá ser no início das Assembleias e não no seu final: enquanto os eleitos aí estão no cumprimento das suas funções, sendo para isso remunerados, os munícipes prescindem do seu tempo de lazer ou de trabalho para aí comparecerem. Não sendo possível determinar a que horas uma Assembleia irá terminar, creio que seria aconselhável permitir aos munícipes que interviessem no seu início, de modo a causar-lhes o menor transtorno possível. Mas sou também de opinião que para isso se deve introduzir uma alteração ao Regimento, que consagre este procedimento de forma inequívoca, ao invés de votações extemporâneas e sobre o joelho, a pretexto não sei de que intenções.

Teve o senhor Presidente da Assembleia o bom senso, que lhe louvo, de no final da mesma inquirir se algum munícipe pretendia intervir. Por outro lado parece-me isto um contra-senso: para que serviu então a votação previamente realizada? Uma coisa vos garanto: exerceria o meu direito de me dirigir à Assembleia, ainda que disso me tentassem impedir, enquanto houvesse eleitos na sala ou alguém dela e pela força me removesse. Os direitos dos cidadãos não podem andar ao sabor dos caprichos dos seus representantes, sejam eles locais ou nacionais.

Termino referindo-me ao espaço reservado às sessões da Assembleia: não haverá espaço mais condigno, onde todos caibamos, e não exista a necessidade, como me aconteceu, de ter que estar do lado de fora da porta do Auditório, a tentar, na maior parte do tempo sem sucesso, ouvir as intervenções dos participantes? Os eleitos estão em condições que julgo serem as suficientes para exercerem condignamente as suas funções. E os munícipes? Sei que sou “cão de Nisa”, mas ficar á porta parece-me ser levar muito à letra a expressão.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Eu hei-de amar uma pedra.VII

Coisas de pedra com alma, porque fluiram de mãos de
gente, para serem úteis, ou belas, ou ambas as coisas
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velha ponte em jeito de abraço
sobre pedras que ternas se beijam

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título do post: inspirado na obra homónima de Lobo Antunes
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texto/foto: josé carlos (ponte sobre a Ribeira de Figueiró - Amieira do Tejo - Nisa)

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Barragem de Cedillo

Andou bem o Município de Nisa, informando atempadamente os seus munícipes, ao emitir um comunicado alertando para a suspensão de trânsito no coroamento da Barragem de Cedillo durante o próximo fim-de-semana, que se prolongará caso necessário. Este encerramento, da responsabilidade da IBERDROLA (com quem, por uma vez, concordo) efectua-se por razões de segurança e tem a ver com o agravamento previsto das condições metereológicas na bacia hidrográfica do Tejo, preparando assim a barragem para receber um aumento de caudal.
Este facto só vem acrescentar mais um argumento à crónica que aqui inseri, "Um rio que nos afasta": é urgente a construção de uma ponte sobre o Rio Sever!
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Não há bela sem senão

Qualquer inovação tecnológica transporta consigo aspectos positivos e aspectos negativos. A era digital não escapa a esta lógica: temos o que de melhor e pior existe à face da terra à distância de um clique. Os caminhos para onde o meu pensamento hoje me leva conduziram- me até aqui, nomeadamente ao modo como utilizamos este rico manancial.

Neste momento particular da minha vida, em que voltei aos bancos da Universidade e dou aulas de Formação, tenho a fortuna de poder simultaneamente ser ensinado e ensinar. O ensino é hoje indissociável de meios tecnológicos avançados, com particular destaque para a utilização da Internet. Sempre que me é pedido que realize um qualquer trabalho, o que à uns anos atrás significava longas horas encafuado em bibliotecas, às voltas com enciclopédias e quejandos, pode agora ser feito em minutos e, com algumas excepções, com uma variedade de fontes antes inimaginável.

O que frequentemente acontece é que, algumas pessoas, ao invés de realizarem pesquisas, resumirem conteúdos e elaborarem algo da sua lavra, citando as fontes, se limitam ao vulgar “copy/paste”, copiar e colar, sem o menor escrúpulo. Ora isto é grave, por três motivos: porque nada se aprende neste processo, porque muitas vezes se utiliza apenas uma fonte (a mais comum delas a “Wikipedia”), cujos conteúdos nem sempre são correctos, e também porque o plágio, no todo ou em parte, para além de ser descortês, é crime.

Existe na sociedade actual uma grande tensão entre a liberdade de acesso à informação em geral e os direitos da propriedade intelectual, ou seja, entre os direitos exclusivos dos autores e a liberdade de acesso de terceiros. Se os legítimos interesses dos autores, patrimoniais e morais, devem ser preservados, também a sociedade deve poder usufruir do “produtos do espírito”.

Reza o nosso Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos, no seu Artigo 1º (Definição), o seguinte:
“1 - Consideram-se obras as criações intelectuais do domínio literário, científico e artístico, por qualquer modo exteriorizadas, que, como tais, são protegidas nos termos deste Código, incluindo-se nessa protecção os direitos dos respectivos autores.”

Reza ainda o mesmo Código, no seu Artigo 9º (Do conteúdo do direito de autor):
“1 – O direito de autor abrange direitos de carácter patrimonial e direitos de natureza pessoal, denominados direitos morais.
2 – No exercício dos direitos de carácter patrimonial o autor tem o direito exclusivo de dispor da sua obra e de fruí-la e utilizá-la, ou autorizar a sua fruição ou utilização por terceiro, total ou parcialmente.
3 – Independentemente dos direitos patrimoniais, e mesmo depois da sua transmissão ou extinção destes, o autor goza de direitos morais sobre a sua obra, designadamente o direito de reivindicar a respectiva paternidade e assegurar a sua genuinidade e integridade.”

Diz também o Artigo 13º (Reconhecimento do direito de Autor):
“O direito de autor é reconhecido independentemente de registo, depósito ou qualquer outra formalidade.”

Vi-me ontem confrontado com a publicação, sem meu consentimento prévio, da crónica “NISARTES ou não, eis a questão” no blogue do núcleo de Nisa de determinado partido político. Não tendo, por princípio, nada a opor à utilização de textos ou imagens minhas, desde que isso me seja solicitado e a autoria esteja devidamente demonstrada, não me agrada que não resulte claro, da leitura do dito blogue, que nada me liga a esse partido, ou que a crónica não foi escrita para aí ser inserida. O facto de existir uma hiperligação para o meu blogue em nada diminui o que acabo de escrever.

Pela utilização abusiva da minha crónica, ao serviço de determinada ideologia, porque o seu conteúdo serve propósitos conjunturais, vejo-me envolvido, sem ser pedido nem achado, no meio de guerrilha política com a qual nada tenho nem pretendo ter a ver no futuro. Exerço os meus direitos de cidadania e intervenção cívica, nos fóruns e através dos meios a que tenho acesso, de modo furioso e orgulhosamente independente, sem conotações ou ligações político-partidárias de tipo algum e assim pretendo continuar.

Solicitei já aos responsáveis pelo blogue, cuja identidade desconheço, a remoção da minha crónica ou a sua utilização de modo que não suscite interpretações erróneas. Aguardo serenamente que a minha reclamação seja atendida e que prevaleçam o bom senso e a dignidade que devem sempre reger as relações humanas.

Termino dizendo que nada me move contra este partido político em particular, e que tomaria exactamente a mesma atitude se de outro qualquer partido político da nossa praça se tratasse
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Adenda (20H30): agradeço aos responsáveis do blogue partidário acima mencionado a remoção da minha crónica do dito e o pedido de desculpas formulado, que aceito.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Namoro




Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com letra bonita eu disse, ela tinha
um sorriso luminoso tão triste tão gaiato
como o sol de Novembro brincando de artista
nas acácias floridas, na fímbria do mar

Sua pele macia era sumauma
sua pele macia, cheirando a rosas
seus seios laranja, laranja do Loje
eu mandei-lhe essa carta
e ela não disse que não

Mandei-lhe um cartão
que o amigo maninho tipografou
“por ti sofre o meu coração”
num canto “sim”, noutro canto “não”
e ela o canto do “não” dobrou

Mandei-lhe um recado pela Zefa do sete
pedindo e rogando de joelhos na chão
pela Senhora do Cabo, pela Sta Efigénia
me desse a ventura do seu namoro
e ela disse que não

Mandei à Vó Xica, quimbanda da fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço bem forte e seguro
e dele nascesse um amor como o meu
e o feitiço falhou

Andei barbado, sujo e descalço
como um monangamba procuraram por mim
não viu, não viu, não viu o Benjamim
e perdido me deram no morro da Samba

Para me distrair levaram-me ao baile
do Sr. Januário, mas ela lá estava
num canto a rir, contando o meu caso
às moças mais lindas do bairro operário

Tocaram a rumba e dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu
e a malta gritou: “Aí Benjamim!”

Olheia nos olhos, sorriu para mim
pedi-lhe um beijo, la la la la la
e ela disse que sim
e ela disse que sim
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fotos: josé carlos
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poema: viriato cruz (música de faústo , interpretação de sérgio godinho)
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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Dá Deus nozes...


Ávido de conhecimento como sou, também das coisas da terra, todos os dias dou uma vista de olhos por blogues e páginas disponíveis na Internet, institucionais, associativas e particulares, cá do burgo e arrabaldes.
Desta vez acedi à página da ETAPRONI (Escola Tecnológica Artística e Profissional de Nisa), que já não visitava há algum tempo. De entre o conteúdo disponível chamou-me particular atenção o seguinte trecho, que reproduzo na íntegra:


“Os alunos do terceiro ano do Curso iniciaram os seus processos de FCT no dia 1 de Fevereiro, sendo as entidades receptoras: Santa Casa da Misericórdia de Vila Velha de Ródão, Gavião e Covilhã; Centro Social de Palmela – Centro de Acolhimento Temporário Porta Aberta; Clube Trilho, DL – Animação Turística, Unipessoal; Capitão Dureza. Organização de Desportos Aventura, Lda. Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental, Castelo Branco. Já em relação ao segundo ano do Curso, os alunos que o compõem iniciarão o seu período de FCT dia 8 de Março, estando já definidas parcerias com algumas das entidades anteriores, mas acrescentando outras que também enriquecerão as estratégias de formação prática e técnica de animadores socioculturais: Associação Quinta Essência, Sintra; Centro Assistencial Cultural e Formativo do Fundão; Turistrela. Turismo da Serra da Estrela, SA; Santa Casa da Misericórdia de Ponte de Sôr; e Centro de Recuperação Infantil de Ponte de Sôr. Como se pode depreender da identificação das entidades, procurou-se diversificar as experiências de formação, para que posteriormente haja uma transferência de conhecimentos entre os alunos, enriquecendo a sua participação nas sessões lectivas teóricas e teórico-práticas. Desta forma procura-se levar a escola até junto das realidades e fazer com que estas a componham enquanto oficina de saberes.”


Fiquei feliz e orgulhoso por saber que os alunos da nossa ETAPRONI são bem-vindos em instituições e empresas por esse país fora, atestado de competência da formação aí ministrada, da valia dos seus cursos, da qualidade dos seus professores e funcionários.

Mas aquele órgão que tenho entre as orelhas, e que tem o raio do vício de nunca estar sossegado, pôs-se a trabalhar. Sigam o meu raciocínio: Vila Velha de Ródão, Gavião, Covilhã, Palmela, Penacova, Castelo Branco, Sintra, Fundão e Ponte de Sôr. Então e Nisa?
Temos uma Escola que forma futuros profissionais na área da Animação Sociocultural e Desportiva, área fundamental no sector do Turismo, que nos é apresentado como peça chave do desenvolvimento estratégico de Nisa, e nem um único destes alunos estagia no Concelho?

Há alguns anos, em particular durante a NISARTES, que me venho perguntando o porquê de se andarem a contratar grupos de animação externos, sem querer pôr em questão a sua qualidade e muito menos insinuar que não devem ser contratados porque são de fora, quando temos em Nisa uma Escola com um Curso de Animação Sociocultural. E durante o resto do ano? Salvo raras e honrosas excepções não é solicitada a sua colaboração. Não haveria possibilidade de utilizar regularmente esta mais-valia preciosa? Não poderiam os alunos propor e realizar actividades de animação nos nossos Lares e Escolas? No Museu? Nos castelos de Montalvão e Amieira do Tejo? No Complexo Termal da Fadagosa? No centro da Vila e nas restantes localidades do Concelho?
Confesso que nunca entendi. Mas uma coisa vos digo: dá Deus nozes a quem não tem dentes!
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texto citado daqui:
http://www.etaproni.edu.pt/index.php?pagina=noticias_actualidade&id=42
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imagem: arquivo particular

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Aviso à navegação


Porque tenho recebido alguns comentários anónimos, uns ofensivos, outros construtivos, e não publiquei nem uns nem outros, tenho recebido também queixas de várias pessoas, reclamando por não ter sido publicado o que me enviaram.

Passo a explicar: neste blogue existe moderação de comentários, ou seja, todos os comentários enviados para o mesmo são sujeitos ao meu escrutínio prévio.

Logo, não são aceites postagens de anónimos ou de pseudónimos (nicknames). Se querem pronunciar-se façam-no, mas assumam a responsabilidade das vossas afirmações. Do mesmo modo não são aceites comentários de teor ofensivo, na linguagem ou no conteúdo.
Não exijo a ninguém nada que eu não faça: assino sempre por baixo daquilo que digo e falo apenas do que conheço ou tive conhecimento público e comprovado, sem ofender ninguém.

Abraços a quem é de abraços, beijos a quem é de beijos.

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Um rio que nos afasta


Os rios têm desempenhado, ao longo dos milénios, importante papel na história da humanidade. Foi junto de rios que as primeiras comunidades sedentárias se radicaram, em busca de água e solos férteis, por eles subiram exploradores à descoberta de novos territórios, verdadeiras muralhas naturais foram defesa contra invasões, por eles navegaram mercadores. Sobre eles se construíram pontes, unindo territórios, facilitando o trânsito de pessoas e mercadorias, de saberes e fazeres. Finalmente vieram as barragens, que os domaram e manietaram, convertendo em energia útil a sua desaproveitada força bruta.
O Concelho de Nisa é limitado a oeste e a norte pelo rio Tejo, a leste pelo Sever. O Tejo une-nos à Beira, o Sever afasta-nos de Espanha.
A passagem para Espanha, para a localidade mais próxima, Cedillo, só é possível atravessando-se a barragem que dela tomou o nome. Esta barragem é particular, propriedade da empresa espanhola IBERDROLA, que só permite o seu atravessamento, nos meses de Julho, Agosto e Setembro, entre as 10:00 horas de Sábado e as 24:00 de Domingo, horário que é reduzido para as 22:00 de Domingo, nos restantes messes do ano.
O ridículo desta fronteira peculiar vai ao ponto de, havendo alguma reunião entre autarcas do Ayuntamiento de Cedillo e autarcas de Castelo Branco, Vila Velha de Ródão ou Nisa, estes terem de passar o Sever ou o Tejo… no barco de um qualquer pescador! Ou, estando eu “tomando unas copas” com amigos, e não reparando nas horas, ter que andar seca e Meca para regressar a casa.
Cedillo dista 117km de Cáceres, capital da Diputación de que depende administrativamente, e 423km de Madrid. De Lisboa dista 302 km, 158km de Castelo Branco, 20km de Nisa. Os seus cerca de 600 habitantes demandam as localidades portuguesas mais próximas para coisas tão simples como comprar bens de primeira necessidade. É raro o fim-de-semana em que num qualquer supermercado de Nisa não ouço, de repente, um “- Bom dia José, que tal?”.
Mais vezes viriam, ou iríamos nós a Cedillo, e por mim falo, que por lá teci cumplicidades e construí amizades. Mas para tal é necessário que se faça um percurso de 104km, com passagem pela Portagem (Marvão) e Valéncia de Alcantara.
Temos portanto uma fronteira privada, coisa que creio inaudita em toda a União Europeia, em que uma todo-poderosa empresa impede os cidadãos, a quem cobra a electricidade gerada pela barragem, de aí passarem sem limitações. Cedillo é uma aldeia pequena, afastada dos corredores do poder e dos centros de decisão, sem força para forçar uma decisão política, um Don Quijote que luta impotente contra moinhos de vento inexpugnáveis. Mas continua a sua luta, como ainda recentemente pude ver, no cartaz, espalhado por Nisa, que anuncia a realização da “XVI Matanza Internacional”, e onde tive modesta mas orgulhosa participação, ou em regulares reivindicações dos seus eleitos, quer junto do poder central espanhol, quer através dos meios de comunicação social. E do lado português, nomeadamente da parte da Câmara Municipal de Nisa, o que tem sido feito?
Creio estar bem informado acerca dos assuntos nossa autarquia: consulto regularmente a sua página na internet, leio as actas das Reuniões de Câmara e das Assembleias Municipais, o Orçamento e Plano em cada novo ano. Mas, que seja do meu conhecimento, do conhecimento público, vão passando os anos e não me apercebo de iniciativa alguma. Vejo, isso sim, uma certa frieza nas relações institucionais entre os responsáveis pelo governo local de Nisa e de Cedillo, cujas razões desconheço. Os povos de ambos os lados da fronteira reúnem-se, confraternizam, promovem iniciativas, enquanto os responsáveis políticos permanecem de costas voltadas. Como disse uma vez a um desses responsáveis, não quero que se casem, até porque já são ambos casados, mas esta indiferença não pode continuar por muito mais tempo, dado o evidente prejuízo que daí resulta para as populações que representam.
A união faz a força, e é importante que o Município de Nisa e o Ayuntamiento de Cedillo unam esforços para a resolução deste e de outros problemas e que nesse esforço envolvam a população. Quer seja forçando-se a IBERDROLA a manter a barragem aberta sem limitações, quer solicitando-se a construção de uma ponte, algo tem de ser feito.
Aproxima-se a data de realização de dois eventos que marcam a vida raiana do Alto Alentejo: a “XVI Matanza Internacional”, dia 6 de Março, e a “XI Rota do Contrabando/Ruta del Contrabando”, dia 20 de Março, o primeiro uma iniciativa do Ayuntamiento de Cedillo, o segundo uma iniciativa da INIJOVEM, com a colaboração de ambas as autarquias. Qualquer um destes eventos seria uma óptima altura para os autarcas imitarem quem os elegeu: darem as mãos e começarem a trabalhar em conjunto. Fica aqui o desafio.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Geminação não é só uma palavra no dicionário


Fui ao dicionário Priberam ver o significado da palavra geminação. E encontrei, entre outros significados: “estabelecer relações recíprocas entre duas coisas (ex. geminar duas cidades) ”.
Continuando no dicionário, fui ver o que eram relações – “conhecimento, amizade, trato”; e já que estava com a mão na massa, recíprocas – “que se dá ou faz em recompensa de coisa equivalente”.
Um Acordo de Geminação pressupõe portanto que exista amizade entre duas localidades, que cada uma procure conhecer melhor a outra, e que exista trato, leia-se relações sociais, entre ambas, e que tudo isto seja recíproco, ou seja, que funcione em ambos os sentidos.
Nisa assinou, em Abril de 1990, um Acordo de Geminação com as vilas francesas de Azay-le-Rideau, Saché e Cheillé, situadas na região do Indre-et-Loire. Para esta região se deslocaram muitas centenas de Nisenses, durante os anos 60 e 70, a grande maioria para trabalhar na fábrica da Michelin, em Joué-lès-Tours, que dista cerca de 20km das localidades acima referidas.
Que seja do meu conhecimento, este Acordo de Geminação foi assinado com pompa e circunstância, mas existe apenas no papel. De que serve uma geminação assim? Que benefícios dele extraem as populações geminadas?
Aos naturais de origem francesa de Azay-le-Rideau, Saché e Cheillé, interessaria conhecer melhor os nossos hábitos, o nosso património, a nossa gastronomia, a nossa cultura, em suma, saber onde os Nisorros que por lá se radicaram, “penduram o pote”. Por outro lado, temos uma segunda e terceira gerações de descendentes de Nisenses, que cada vez mais se afastam das suas raízes, que cá apenas regressam, se é que o fazem, por alguns dias durante as férias.
Aos residentes de Nisa, que não conhecem a realidade que os seus conterrâneos na diáspora foram encontrar e onde ainda hoje vivem, interessaria o mesmo, ou seja conhecer e privar de perto com a cultura francesa.
As geminações não podem existir apenas no papel, têm que ser funcionais, permitir e facilitar a troca de ideias e saberes, de experiências. E se isto não se faz é por manifesta falta de vontade política ou puro desinteresse, dado que, pelo menos nesta situação, não se põe a questão de dificuldades financeiras da autarquia.
Algumas ideias: não seria possível, depois de obtido o apoio de algumas famílias nisenses e francesas, alojar em nossas casas (a melhor maneira de conhecer a cultura de um povo é entrar-lhe pela casa dentro) algumas crianças, durante algumas semanas por ano, na época das férias? Não seria possível um intercâmbio de estudantes, do ensino regular e do ensino profissional, com a realização de estágios e actividades didácticas em ambos os países? Não seria possível, com o apoio das associações do Concelho de Nisa e das associações que certamente existem em França, a realização de convívios regulares, de torneios desportivos, de actividades culturais? E tudo isto apenas com alguma boa vontade e vontade política.
Por mim, desde já me disponho acolher uma ou duas crianças francesas, e a permitir que o meu filho se desloque a França, já este ano, se ainda for possível coordenar uma acção desse tipo.

Porque geminação não pode ser só uma palavra no dicionário.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

NISARTES ou não, eis a questão


Não sou economista, não tenho mesmo formação alguma nas áreas da gestão e finanças. Mas giro um pequeno negócio, do ramo hoteleiro, e qualquer sapateiro de vão de escada sabe que, para sobreviver, as receitas têm que ser superiores às despesas.
Ora como sabemos todos isto nem sempre acontece, por razões várias: porque investimos e o retorno desse investimento tarda em surgir, porque investimos no momento errado, porque, por uma variedade de razões, nem sempre da nossa responsabilidade, os nossos custos aumentaram, ou ainda porque as nossas receitas não acompanham os custos.
Nestas situações as soluções são poucas: ou aumentamos a receita, ou diminuímos os custos, ou conseguimos ambos os desideratos.
Qualquer negócio oscila num equilíbrio precário entre o preço de venda e o preço de custo, entre o máximo que o comerciante pode ganhar e o mínimo que o cliente pretende pagar. Se eu já estou a ganhar o máximo que posso, porque se aumento o preço perco os meus clientes, e a minha despesa, por exemplo os meus custos fixos de exploração (rendas, electricidade, água, etc) aumentam, o que posso fazer?
Dir-me-ão: é fácil pá! Corta-se nas despesas! Claro que sim, era precisamente aqui que eu queria chegar: claro que corto nas despesas, mas como?
Muitas vezes, mesmo cabeças informadas, quando não supostamente iluminadas, não entendem aquilo que eu, leigo na matéria, vejo claramente: a diferença entre reduzir custos e desinvestir. Reduzir custos é uma medida de gestão aconselhável e desejável, desinvestir pode trazer graves consequências.
Voltando ao meu negócio, eu explico: reduzir custos será utilizar menos o telefone, controlar os consumos de luz e gás, mantendo apenas em funcionamento os equipamentos essenciais em dado momento, procurar consumíveis a melhores preços, renegociar taxas de juro na banca ou contratos de seguros. Desinvestir será deixar de renovar o mobiliário, começar a servir produtos de segunda (porque são mais baratos), não substituir as roupas dos quartos todos os dias (menor consumo de água, electricidade e detergente).
Se eu reduzir custos os meus clientes não serão afectados, logo a minha receita não será afectada, e o meu saldo tenderá a ser positivo ou, na pior hipótese, menos negativo. Se eu desinvestir, os meus clientes serão afectados (provavelmente optarão por outra unidade hoteleira) logo a minha receita será afectada e o meu saldo, ainda que os meus custos diminuam, tenderá a tornar-se ainda mais negativo.
Comecei por dizer que não sou economista, longe disso, por isso, a que propósito vem este arrazoado? Porque corre por aí nos “mentideros” o rumor de que este ano se não realizará a NISARTES. E o que tem isto a ver com redução de custos e desinvestimento? Muito!
Que o Concelho está endividado todos sabemos. Aliás, e isto chocará alguns, esse é o menor dos meus problemas: todos os concelhos estão endividados. Se uma autarquia não contrair empréstimos não poderá fazer obra. Não, o problema não é o endividamento, mas sim o facto de este ultrapassar o seu máximo permitido. De qualquer modo, não vi ainda esta situação cabalmente explicada. Mas concedamos que o tempo das vacas gordas acabou e que são necessários sacrifícios: é fácil pá! Corta-se nas despesas!
Em que despesas? Nas remunerações dos funcionários? No número de funcionários? Sejamos pragmáticos: num concelho onde a autarquia é o maior empregador, qualquer uma destas medidas causaria danos a dezenas de munícipes, contribuindo ainda mais para o agravar da situação. Retirando o tapete debaixo da TERNISA, deixando de injectar capital na empresa? Mais uma vez o meu pragmatismo me diz que esta não é a solução: o projecto atingiu tal dimensão, quer estratégica, quer financeira, que a única solução é continuar o investimento e esperar por melhores dias. Tenho as minhas críticas acerca do modo como a Ternisa vem sendo gerida, nomeadamente ao nível da comunicação, mas isso são contas doutro rosário,que deixarei para outra crónica.
Então onde é que a autarquia pode reduzir custos? Humildemente confesso que não sei. Não fazendo parte da vereação, não sendo sequer funcionário, não possuo dados suficientes para apresentar soluções. E quem não sabe não inventa!
Sei, isso sim, que a resposta não passa, a confirmar-se o que corre nos “mentideros”, por não realizar a NISARTES. Porque isso não é redução de custos, é desinvestimento.
Se há algo que, ao menos uma vez por ano, põe Nisa no mapa de Portugal, é a NISARTES, nosso evento maior, nossa montra. Certamente todos se lembrarão ainda do mortiço Verão de 2006, ano em que não se realizou a então denominada FRAGAE, da acentuada quebra de receita que tiveram os estabelecimentos comerciais nas áreas da restauração e bebidas, hotelaria, artesanato e outros, do desconsolo que foi ver a Vila sem gente nem animação.
Para além do impacto negativo que teria a nível da divulgação das actividades e riquezas do concelho, teria também um impacto muito directo na sua economia e finanças. Muitas pequenas empresas, principalmente as mais afectadas pela sazonalidade, deixarão de realizar receita substancial, bem como a própria autarquia, já que a esta cabe uma parte do valor do IRS, IRC e IVA cobrados no concelho, num círculo vicioso inultrapassável.
Dir-me-ão que à autarquia a realização da Nisartes dá prejuízo, que a receita gerada não cobre a despesa. Pois dará, mas também as estradas dão e não é por isso que as autarquias deixam de as fazer, nem isso, por tão absurdo, passa pela cabeça de alguém.
Gestão autárquica não é gestão empresarial, e até mesmo as empresas têm responsabilidade social. As autarquias devem optimizar custos, mas não podem desinvestir em equipamentos e actividades que afectem, de modo ou indirecto, a qualidade de vida dos seus munícipes.
As boas soluções costumam ser as mais simples, mas nem sempre são as mais fáceis. E é fácil, do ponto de vista das finanças da autarquia, argumentar contra a realização da NISARTES. Mas será boa solução?

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Acordo Ortográfico, palavras e modas


Antes do mais, um aviso à navegação: não sou filólogo mas apenas alguém que gosta da sua língua, de a falar e escrever correctamente, pelo que esta crónica não tem veleidades de teor científico, tecendo apenas considerações genéricas, umas do que creio ser comum bom senso, outras marcadamente pessoais.
Com particular incidência durante o último ano, que se prolongou pelo presente, rebentou a discussão entre aqueles que são a favor ou contra o Acordo Ortográfico, numa celeuma que, estou certo, continuará no futuro. Pelo menos até toda uma geração falar e escrever do mesmo modo, e apenas os mais velhos, em súbitos ataques saudosistas, precedidos do proverbial “no meu tempo”, resmungarem entre dentes que a língua já não é o que era.
Por mim, e para que as coisas fiquem desde já em pratos limpos, sou a favor deste Acordo. Para que melhor me entendam, direi que o Acordo em si não me aquece nem arrefece, a minha concordância deve-se a um sentido pragmático que entende que, se há coisas inevitáveis, uma delas é a evolução da língua, ao arrepio de todos os dicionários e acordos do mundo.
Nestes assuntos, os políticos andam sempre a reboque dos povos: limitam-se, em determinada altura, a regular aquilo que já é prática corrente. Se assim não fosse, talvez ainda andássemos todos a macarronear latim, ou pior ainda, a falar uma qualquer das línguas que os romanos encontraram ao chegar à Lusitânia.
Um dos pontos que maior celeuma levanta neste acordo tem a ver com o facto de a grafia das palavras ser “brasileira” e não “portuguesa”. Este acordo, tal como o entendo, pretende aproximar a fonética da morfologia, o modo como as palavras se pronunciam do modo como se escrevem, questão de importância maior, se queremos que o português continue a ser a primeira língua nos PALOP. Curiosamente, e talvez isto constitua surpresa para alguns, o português do Brasil é bastante mais conservador que o de Portugal, sobretudo no aspecto fonético. Um português de quinhentos seguramente entenderia melhor um carioca dos nossos dias do que um alfacinha.
Temos que nos colocar uma questão: uma língua é património de um determinado país ou dos seus falantes? A língua portuguesa é património de Portugal ou dos seus cerca de 200 milhões de falantes nativos, a que se somam mais cerca de 40 milhões não nativos?
Talvez por ter crescido em África, por ter vivido em várias regiões do nosso país, por manter contacto regular com falantes do Português de todos os cantos do mundo, nunca tive sentimento algum de posse sobre a língua. Mais: acredito piamente que o facto de se falar de um determinado modo em Angola, doutro no Brasil e doutro ainda em Portugal, contribui sobremaneira para o enriquecimento do português e para o seu futuro, do mesmo modo que o nosso substrato linguístico, o Latim, mas também o Visigótico ou o Árabe contribuíram para a riqueza da nossa língua.
Ainda no âmbito da língua, fui recentemente corrigido por alguém ao utilizar a palavra velho, sendo-me dito que isso já não se usava, deveria dizer idoso ou sénior. Isto deixou-me a pensar.
Pelos vistos, as palavras têm data de validade: passado determinado prazo devem seguir para o lixo ou a reciclagem. Claro que esta onda, chamemos-lhe assim, tem a ver com certos modismos, muito condicionados por alguns fazedores de opinião (e, ao ler isto, já está alguém a pensar que eu deveria dizer “opinion makers”) e acerca do que estas luminárias entendem ser politicamente correcto.
Se me permitem discordar, gosto da palavra velho. Velhinho não, que me lembra coisa pequenina e engelhada, mas velho, acho lindo. Muito mais do que o politicamente correcto "sénior" ou idoso, palavras sensaboronas, sem alma. Vocês imaginam Hemingway a escrever algo chamado "O Idoso e o mar", ou, pior ainda, "O Sénior e o Mar"? Se tiver essa fortuna, vou adorar que me chamem de "meu velho".
Estamos a transformar-nos num país de trampa, na inversa medida em que nos tornamos cada vez mais assépticos. Curiosa contradição esta, em que o perfumado sabonete do politicamente correcto se transmuta, por estranha e misteriosa alquimia, em fecais e malcheirosas atitudes, sempre precedidas de copiosa diarreia mental! O país, que se dizia de bravos, vai-se transformando numa massa acéfala e ovinamente obediente, porém muito polidinha e bem educadinha, que acha mal dizer preto, gordo, anão, deficiente, pobre, doido, velho, mulher-a-dias, contínuo, mentira (pérola de um dos deputados de cu que pululam no, cada vez menos, nosso parlamento, cujo nome não recordo, mas cuja tirada não esqueço, referindo-se às afirmações de um seu par: "- O que o Sr. acaba de dizer é uma inverdade!"), et coetera ad nauseum. Prefere-se a forma ao conteúdo, o supérfluo ao essencial, o artifício à realidade. Os bois chamam-se pelos nomes!
Uma pequena história: por razões que aqui não cabem, tive o privilégio de, em 2005, privar com um grupo de pessoas da ACAPO (Associação dos Cegos e Ambliopes de Portugal). Sem nunca ter discriminado, ainda que positivamente, pessoas com este tipo de deficiência (acho que também já não é assim que se diz) estava cheio de ideias preconcebidas de diversa ordem. Não querendo ferir susceptibilidades, dirigi-me a um dos membros do grupo, o Hortas, e disse uma frase qualquer onde inclui a palavra invisual. O Hortas deu uma grande gargalhada, virou-se para um companheiro, disse-lhe: “- Oh Zé Miguel! Arranjaram-me uma doença nova: já era cego, agora também sou invisual!”. Foi a última vez que fui politicamente correcto.
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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

"Les uns et les autres"



A esta crónica dá título um filme do início da década de 80, realizado por Claude Lelouche. Tenho dele a memória de ser um musical épico, muito graças à sequência final, ao som poderoso do “Bolero” de Maurice Ravel. É um filme para chorar e rir, em que não há bons nem maus, apenas pessoas que podíamos ser nós mesmos.
Esta não é uma crónica cinéfila, que para tal não tenho arte nem engenho. Por ora, apenas o nome do filme me interessa: uns e os outros. Vós e nós. Os nascidos em Nisa e os que o não são.
Nos últimos tempos corre por Nisa, sussurrada nos espaços públicos ou gritada na cobarde, porém confortável, sombra do anonimato, uma corrente de opinião que discrimina os ditos “importados”, significando isto, presumo eu, aqueles que aqui não nasceram, ou, pelo menos, aqueles cuja árvore genealógica aqui não criou raízes.
Embora a expressão se aplique apenas a produtos e não a pessoas, e se refira a bens que são adquiridos por um país a outro, aceitemos, para este efeito como válido, o conceito de que todos os residentes em Nisa não incluídos nas condições referidas no parágrafo anterior, são importados. Julgo que o autor ou autores da expressão deveriam ter ido mais além na definição, pois pairam algumas dúvidas no meu espírito: é importado que foi mandado vir, digamos contratado por alguma empresa ou instituição, ou quem veio por ser essa a sua opção de vida? São ambos importados? Se sim, qual deles é mais “importado” do que o outro?
Não nasci em Nisa. Que seja do meu conhecimento, nenhum dos meus mais recônditos antepassados alguma vez aqui colocou pé e muito menos semente. Vim para Nisa por razões do coração: através de amigos aqui conheci a minha mulher, e foi por ela que aqui me radiquei. Porque era mais pragmático ser eu, profissional liberal, a deslocar-me de onde então residia para cá, do que ela, comerciante nesta praça, a encerrar o seu negócio.
Gostei da terra desde o primeiro momento, inicialmente apenas aos fins-de-semana, mais tarde por períodos mais prolongados. Agradou-me a sua pequena dimensão e pacatez (nunca gostei da “cidade grande”, talvez fruto da minha infância decorrida em África, numa vila ainda menor), a simpatia das suas gentes, os equipamentos sociais existentes, a sua gastronomia, o seu património. Aqui me instalei pois, de armas e bagagens, para só sair a caminho do forno crematório mais próximo, chegado o devido tempo.
Para memória futura nesta crónica, fica o facto de que a primeira empresa para quem trabalhei em Nisa ser de Vila Real, especializada em Topografia, área em que tenho formação, fazendo parte da equipa que fiscalizou a construção das variantes de Gáfete e Alpalhão. Terminado o contrato com essa empresa (que me propôs novo contrato, recusado, creio que na região de Ovar), e devido à falta de empregos no Concelho, candidatei-me a dois concursos abertos pela Câmara Municipal, para os quais não fui seleccionado. Porque necessitava de trabalhar, tomei de renda um negócio já existente, que ainda hoje mantenho. Para além disso, mais recentemente, tenho trabalhado na área da educação e formação de adultos, numa instituição local. Resumindo, e como diz o povo, investi em Nisa “coiro e cabelo”, e que seja do meu conhecimento, a menos que tenha por aí benfeitor anónimo, não devo favores a ninguém.
Porque desde muito novo estou ligado ao Associativismo e ao serviço comunitário, tornei-me sócio de três associações da terra. Ao serviço de uma delas, colaborei nas mais diversas actividades, umas dirigidas à juventude, outras à população em geral. Graças a ao trabalho aí desenvolvido, em particular no Pedestrianismo, tive a oportunidade e a felicidade de conhecer o Concelho de fio a pavio, a sua riqueza e diversidade. Este trabalho, não apenas o meu mas o de todos os outros voluntários, foi feito à custa do sacrifício de muitos milhares de horas, de muitas centenas de quilómetros a pé, de alguns aborrecimentos com a família e, porque não dizê-lo, com muito dinheiro do meu próprio bolso. O que ganhei com isto? O orgulho de dar a conhecer a terra aos de fora e aos dentro, a satisfação de ser cumprimentado por um trabalho bem feito, a sensação de bem-estar que no final de uma actividade me invade, ao pensar: hoje fiz algo por alguém!
Baralhando e dando de novo, alguns terão vontade, pelo que a seguir escrevo, de me espalmar um pau de marmeleiro no costado: não tenho a menor dúvida que já fiz mais por este Concelho, pela sua divulgação, pela sua economia e pelo seu enriquecimento cultural e social, do que a maioria dos que pelas costas e entre dentes, me chamam “importado”.
Vindo da gente de uma terra que tem na diáspora a grande maioria dos seus filhos, este epíteto é, no mínimo, estranho. Este surto xenófobo resulta, em minha opinião, do agravar de carência crónicas no Concelho, acentuadas pela actual crise. É fácil criticar o outro, o diferente, o estrangeiro, o que vem de fora, o “importado”. Em pleno século XXI, cada vez mais próximos do conceito de “aldeia global” de McLuhan, é este um sentimento profundamente provinciano e menor.
Remato com uma pequena história verídica: há alguns anos atrás, numa actividade a que nos deslocamos num outro Concelho, um dos elementos do nosso grupo comentou para alguém que éramos de Nisa. Ninguém o desmentiu, mas dos cinco aí presentes, um, eu próprio, sou natural de Lamego, três outros do Porto, da Guiné e de França (dois dos anteriores são de famílias da terra), e apenas o autor da tirada é natural de Nisa. Entre nós comentamos o facto entre sorrisos, sem discriminação, apenas constatando algo. Tal questão nunca entre nós se levantou, unidos que estivemos sempre, em torno de uma causa comum: o nosso Concelho!
Não enfio a carapuça, que me não serve, mas esta palavra, “importado”, assim dita, como quem cospe, é para mim um insulto que levo muito a peito. Hesitei bastante antes de escrever esta crónica, pela celeuma que irá certamente, em alguns meios, levantar, e pelas prováveis inimizades que me irá criar. Pela frontalidade que me caracteriza, não poderia deixar de ter este desabafo público, e assinar por baixo, como sempre faço.