sábado, 31 de maio de 2008

Exercício de retórica do absurdo


Façam-me o favor de me acompanhar num pequeno exercício de retórica do absurdo.

Imaginem que chegavam ao tal estaminé de dormidasepequenoalmoço de que sou proprietário. Tinham feito a vossa reserva e pago com antecedência, mas, ao chegarem à Recepção, ficavam a "secar" mais de meia-hora antes de me dignar a conceder-vos o prazer da minha companhia.

Ao chegar ao balcão, em chanatas e roupa com aspecto de ter servido de pijama três noites a fio, recuavam três passos com a explosão da bomba de bafo a álcool que eu exalava. Complicava ainda mais as coisas, começando a balbuciar que não me sentia bem e que se calhar nem deveria ter aberto a porta, isto enquanto tossia metade de um pulmão e pegava num copo de vinho, para clarear a voz.

Como já tinham vindo até cá, tinham pago antecipadamente e não são pessoas de desistir, prosseguíamos para o registo, que fazia com mão trémula e letra hieroglífica, enquanto vos ia informando que os preços já não eram os que tínhamos combinado, e que nem pensar em servir-vos o pequeno-almoço na manhã seguinte.


Como é que reagiam?

Hipótese A - Pregavam-me três bananos no focinho e mandavam-me ir cozer a bebedeira?

Hipótese B - Pediam educadamente o Livro de Reclamações, diziam de vossa justiça e saiam porta fora, para nunca mais voltar?

Hipótese C - Comiam e calavam?

Se responderam A, deixem que vos diga que a violência nunca resolveu nada. Além disso, bater num bêbedo é descer ao nível dele, para além de ser um acto de cobardia.

Se responderam B, são cá dos meus: reclamar sim, sempre que a razão nos assiste, mas pelas vias devidas e sem baixar o nível nem perder as boas maneiras.

Se responderam C: ok, agora percebo porque foram ao concerto da Amy Winehouse. Têm o que merecem!


PS: o meu diabinho pessoal não se cala com a ideia parva de que o nome Amy Winehouse, em Português, quer dizer Amelinha Vinha d' Alhos! Tadinho, têm que o desculpar: até sabe inglês, mas anda há tempo demais a traduzir títulos de filmes e documentários da TvCabo!

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imagem: daqui.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Taméim!!


Como alguns saberão, e quem não sabia fica a saber, tenho um modesto estaminé de dormidasepequenoalmoço em terras de além-tejo. Num destes dias, durante o desjejum, enquanto o locutor da SIC Notícias dizia, com ar compungido, que a crise alimentar no mundo se agravava, por causa do pessoal que anda a pôr os chiantes a carburar a óleo de cozinha depois de usado para umas quantas frituras de batata (lembrei-me agora: porra, que a McDonald's vai-se fartar de facturar!!!), dizia o Cearense, com ar sisudo, entre uma dentada na sandes mista e um gole de café:

"- Taméim!!. Essi pêssoar só sabe prántá oliveira! Num bóta um pé dgi láranja, num bóta um pé dgi máçã! Como vai ter comida qui chegue prá todo mundo?"

PS: perdoe-me o eventual, e altamente improvável, pára-quedista cearense que aqui caia inadvertidamente, pela fonetização certamente pouco correcta, mas estou a "tocar de ouvido"....

PPS: ouvisto (não, não é erro: na televisão a gente ouve e vê, certo?) esta manhã: afinal a culpa não é só do pessoal dos chiantes, também é do aumento do número de gordos, que consomem muitas calorias e combustível. Estou mesmo a ver os putos, amanhã nas escolas, a embirrarem com os gordos por mais uma coisa..... para além de "badocha", "bola de sebo" e epítetos que tal, ainda vão ter que começar a engolir pérolas como "malandro, que andas a matar o pessoal do biafra à fome" ou "desgraçado, morreu mais um coreano do norte por tua culpa"...

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Da próxima vez...



Da próxima vez que um prestimoso e educado agente da GNR se dirigir a mim e me disser, depois de vistosa palada, que me vai multar porque ia em excesso de velocidade, conduzindo à insana velocidade de 75km/h num local onde o limite é de 60km/h, vou responder:

- Desculpe, não conhecia a lei. Mas prometo que não torno a fazer!

Da próxima vez que receber uma carta da simpática e sempre atenta repartição de Finanças da minha área de residência, a informar-me que deixei passar o prazo de pagamento de um imposto e que terei que pagar o dito, a respectiva coima e os juros de mora, vou responder:

- Desculpe, não conhecia a lei. Mas prometo que para a próxima pago a horas!

Da próxima vez que essa nobre instituição, preocupada com o meu bem-estar em geral e a minha saúde em particular, chamada ASAE, me vistoriar e me multar porque a bancada da minha cozinha é em mármore e deveria ser em aço "inox", e polula de maléficas bactérias, mortinhas por me transmitirem todo o tipo de doenças, daquelas que nem o Dr. House descobre à primeira, vou responder:

- Desculpe, não conhecia a lei. Mas prometo que vou já proceder à substituição!

E nada me vai acontecer, porque da próxima vez que todas estas coisas me sucederem, vou ser Primeiro-Ministro de Portugal.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

"Olho Neles"


Não sou de ler seja o que for de um só fôlego, nem as notícias do jornal. Leio pausadamente, volto atrás para reler algo, digiro devagar a informação que vou recebendo. Também assim foi com este livro da Margarida.
Antes de iniciar a sua leitura, e pese embora já conhecer a escrita da Margarida, da coluna que manteve no "Jornal de Nisa" durante algum tempo, e de a forma não estar em questão, preocupava-me o conteúdo. Com a brutalidade própria da franqueza, e não sei ser de outro modo, digo-vos que receava entrar numa obra piegas e plena de auto-comiseração, o que a situação nela retratada até poderia justificar.
Em vez disso, encontrei um texto lúcido, onde a verdade de um drama real nos é exposta de forma nua e crua, directa.
Como já anteriormente referi, não acompanhei, numa opção consciente e deliberada, o declínio do Pai Jorge. Assim, e até porque nunca busquei pormenores junto da família, tomei agora consciência, de uma só vez, da complexidade desse processo. E lamento hoje nunca ter, por uma vez que fosse, ido junto do Pai Jorge para lhe dar uma abraço. É que, resguardado pelo escudo das minhas convicções acerca da vida e da morte, nunca me ocorreu que nem todos pensamos assim e que, a ele, lhe faria falta esse abraço. E o mesmo vale para a Maria da Luz, o Marco, a Margarida, o Gustavo, a Catarina e o Tiago, que mais de perto sentiram este drama. Pelo que vale, ele aqui fica, de modo dorido e com um sentido pedido de desculpas pelo atraso.
Voltando ao livro: nunca antes li obra alguma que, na primeira pessoa, relatasse o dia-a-dia de uma família asfixiada por uma situação do foro oncológico. Por norma, famílias nesta situação, começando logo pelo facto de se referirem à doença por meio de eufemismos como "coisa ruim" e afins, quase escondem dos outros o que acontece. Como se o cancro fosse um anátema lançado sobre eles, quase com vergonha.
A Margarida, e pelo que me foi dado ler, a família Oliveira no geral, pegou o touro pelos cornos e lidou com a doença como eu acho que deve ser: de frente, olhos nos olhos, a lutar até ao último suspiro.
Durante a leitura, e passado o tal início receoso, embrenhei-me na história, ri-me em algumas passagens, alto e se calhar escandalosamente, tendo em conta o que nele se retrata, chorei noutras. Não digo que assim seja para todos, mas para mim, que conheci o Pai Jorge e diariamente revejo e cumprimento alguém da família Oliveira, este livro funcionou como uma espécie de catarse, permitiu-me um último adeus ao Pai Jorge, que está no céu, não no das crenças religiosas, em que não acredito, mas no da minha memória, onde guardo a lembrança da gente boa que fui conhecendo e cujo corpo voltou ao pó.
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Quem quiser adquirir o livro, pode fazê-lo aqui.