quinta-feira, 29 de março de 2007

Ah grandes portugueses!


Terminou no passado dia 25 de Março o concurso televisivo da RTP1 intitulado "Os Grandes Portugueses", que visava eleger, através do voto de todos nós, a personalidade mais marcante da História de Portugal. Programas similares foram já emitidos no Reino Unido, onde o formato teve origem, França, Alemanha, Bélgica, Holanda, República Checa, Roménia, Bulgária, Finlândia, Estados Unidos, Canadá, Equador, África do Sul e Nova Zelândia, estando em fase de produção no Chile. Na maioria destes países a votação foi completamente aberta, ou seja, nenhum nome foi vetado, mesmo em países com figuras controversas: na Roménia, por exemplo, o antigo ditador Nicolae Ceausesco ficou classificado em 11º lugar. Por outro lado, na Alemanha foram vetados vários nomes, entre eles Adolf Hitler ou Erich Honecker (líder da antiga República Democrática Alemão, entre 1971 e 1989). Na África do Sul, após muita polémica e por pressão do público, o programa foi suspenso apenas cerca de mês e meio após o seu início, dado que entre os mais votados se encontravam nomes polémicos como Endrik Verwoerd (o "arquitecto" do famigerado "apartheid") ou Eugène Terre'Blanche (líder do "Afrikaner Weerstandsbeweging", grupo político e paramilitar apologista da supremacia branca).

Logo desde o início de "Os Grandes Portugueses" se verificou que António de Oliveira Salazar era um dos nomes mais votados. A polémica estalou, com argumentos a favor e contra a sua inclusão entre os nomeados. Pela parte que me toca, acho legítima a sua inclusão. Num estado democrático, onde todos são livres de emitir a sua opinião, que grande contrasenso seria vetar alguém a quem criticamos por impedir a liberdade de expressão! Se é um sapo que me custou a engolir (e que grande sapo foi!) isso já é outra questão.
Chegados à final já tudo apontava, pelas sondagens entretanto efectuadas, que Salazar se apresentava com grandes probabilidades de vencer o concurso, o que se veio a verificar, por números muito expressivos. Mas vejamos então a classificação final:

1º - António de Oliveira Salazar - 41,0% 2º - Álvaro Cunhal - 19,1% 3º - Aristides de Sousa Mendes - 13,0% 4º - D. Afonso Henriques - 12,4% 5º - Luís de Camões - 4,0% 6º - D. João II - 3,0% 7º - Infante D. Henrique - 2,7% 8º - Fernando Pessoa - 2,4% 9º - Marquês de Pombal - 1,7% 10º - Vasco da Gama - 0,7%

E nos outros países, onde concursos similares tiveram lugar, como mais acima referimos (com excepção do Equador e Malásia, acerca dos quais não consegui obter informações) quem ganhou? Vejamos:Reino Unido - Winston Churchill ,França - Charles de Gaulle ,Alemanha - Konrad Adenauer, Bélgica - Jacques Brel, Holanda - Pim Fortuyn, República Checa - Karel IV, Roménia - Stefan Cel Mare, Bulgária - Vasil Levsky, Finlândia - Carl Mannerheim, Estados Unidos - Ronald Reagan, Canadá -Tommy Douglas, África do Sul - Nelson Mandela, Nova Zelândia - Ernest Rutherford. Num total de13 países, temos como vencedores oito líderes políticos democráticos, dois monarcas, um revolucionário, um cantor e um cientista. E em Portugal?

Em Portugal ganhou o homem que foi o fundador e principal mentor do Estado Novo, um regime político autoritário e corporativista, um regime onde estavam proibidos os partidos políticos e os sindicatos, onde existia a Censura, onde foi criada uma polícia política para perseguir aqueles que discordavam do regime, o único estado que após a II Guerra Mundial se recusou a acatar as recomendações da ONU e não reconheceu o direito à autodeterminação dos povos das regiões por si colonizadas, numa política de isolacionismo internacional sob o lema "Orgulhosamente sós". Ganhou o homem que, perante a sangrenta revolta no norte de Angola, em Março de 1961, respondeu com o célebre "Para Angola rapidamente e em força", conduzindo o país para uma Guerra Colonial que causou milhares de vítimas, que o arruinou economicamente e que abalou as suas estruturas sociais e políticas, o homem que poucos meses depois, a 14 de Dezembro de 1961, a três dias da invasão do Estado Português da Índia (Goa, Damão e Diu) pelas forças da União Indiana, pediu o sacrifício da vida aos três mil militares portugueses aí colocados, com outra fase famosa: "Só soldados vitoriosos ou mortos". Ganhou o homem austero e de falas mansas, por oposição à exuberância de Hitler, Franco ou Mussolini, mais bombásticos, mas que permitiu o culto do chefe, sendo muitas vezes apelidado pela imprensa da situação de "ungido de deus", "salvador da pátria" ou "redentor da nação".

O que passa com este país para que um ditador tenha vencido este concurso? Só votaram os saudosistas que ainda vão em romagem à campa rasa de Santa Comba, em "excursionismo revivalista", e que agora aí querem erigir um museu, a pretexto do desenvolvimento turístico da região e do facto de ser um filho da terra? Só votaram os fedelhos neo-fascistas que volta e meia conspurcam o hino nacional ao cantá-lo de braço direito erguido e mão estendida? É esta eleição o resultado de anos de desencanto da população portuguesa com um regime democrático que não está ainda, aparentemente, consolidado, e que teria como outros sintomas o gradual aumento da abstenção em sucessivas eleições ou o cada vez maior descrédito a que vai sendo votada a maioria da classe política nacional? Só votaram os imbecis?Será, como li no "Diário de Notícias", que "...a história épica ensinada pela ditadura continua a ser o molde através do qual muitos portugueses olham para o passado. A democracia não fez melhor do que reinventar os Descobrimentos como base do espírito nacional...". Será que saltamos, em delirante hiato, do mito sebastianista para o mito salazarista? Ou, como outros referem, ter-se-á tratado de uma votação manipulada, que não reflecte o verdadeiro pensar da população portuguesa?

Gostaria de ter uma resposta para esta questão. Não a tenho. Mas não acredito na "teoria da conspiração", na ideia de que os resultados foram manipulados. Também não tenho por imbecil a maioria do povo português. Creio apenas que, e mais uma vez como tantas outras, aqueles que ainda não se sentem confortáveis na pele de democratas se mobilizaram e votaram, enquanto que os outros, os que intitulam democráticos mas me lembram os católicos "não praticantes", por inércia e desinteresse, se limitaram a deixar correr o marfim.

A esses, aos que não sabem dar valor à liberdade e democracia que de mão beijada, alguns poucos, tiveram a coragem de lhes proporcionar, pergunto: já se esqueceram dos filhos, irmãos ou amigos que derramaram o seu sangue e ainda hoje sofrem de sequelas resultantes da Guerra Colonial? Já se esqueceram da falta de respeito pelos direitos civis, da liberdade de imprensa e da prepotência das forças policiais, com particular destaque para a nefasta PVDE/PIDE/DGS? Já se esqueceram de uma vida cinzenta e pobre, mitigada apenas por doses orquestradas pelo Secretariado da Propaganda Nacional de "Fátima, Fado e Futebol" ou pelos "Serões Para Trabalhadores" da FNAT, num provincianista e redutor "lá vamos cantando e rindo"? Já se esqueceram do Forte de S. João Baptista, do Forte de Caxias, do Forte de Peniche, do Aljube, do Tarrafal?

Uma vez mais, por preguiça mental e comodismo, a memória de um ditador foi exaltada e memória daqueles que sofreram na carne e no espírito, que foram perseguidos, detidos e mortos na luta contra esse mesmo ditador, foi insultada. Para que conste, e porque me orgulho dos seus feitos, votei na primeira fase do concurso em Salgueiro Maia, e, na fase final, e uma vez que Salgueiro Maia ficou classificado em 11º lugar , logo fora dos 10 finalistas, votei em Aristides de Sousa Mendes. Porque eu não esqueço!


sábado, 24 de março de 2007

A Festa foi linda, pá!






A Festa foi linda pá!
Acordei às 06:00, que quem vai para o mar avia-se em terra e havia muito "aviamento" ainda a fazer. A logística envolvida na condução a contento de um grupo de 260 pessoas é algo pesada, pelo menos para uma Associação com a dimensão da nossa e no meio em que estamos envolvidos, pouco propício à obtenção de apoios. Vale-nos uma grande capacidade de mobilização dos nossos associados, sempre generosos nestas ocasiões, que se dividiram por uma diversidade de tarefas, desde o secretariado à preparação do almoço, passando pelo reabastecimento aos caminheiros e ao acompanhamento destes no terreno. Numa conjugação de boas-vontades conseguimos reunir uma equipa de cerca de 20 elementos e três viaturas TT, uma delas da Câmara Municipal de Nisa, que cedeu também dois autocarros, contando ainda com a colaboração dos Bombeiros Voluntários de Nisa, com uma ambulância sempre ao alcance de uma chamada via radio e de dois socorristas a acompanhar o grupo.
Saímos de Cedillo pelas 09:00, 170 portugueses e 90 espanhóis , em franco convívio, como é apanágio das gentes da raia, cujos sangues se misturam em genealogias de antanho, que às divisões impostas pelos caprichos da História dizem nada, riscos num mapa não separam corações.
Pela frente 18 quilómetros de encantamento, até para mim que ia, após uma série de reconhecimentos, na minha quarta passagem por aquelas partes. Ainda em Espanha, numa paisagem que em Portugal depois se repetirá, dominam primeiro o xisto e as estevas em flor. Depois os rios Sever e Tejo, que se desenrolam aos nossos pés, a força domada pela Barragem de Cedillo. Predomina ainda o verde, ainda corre a água nos regatos. Ao longo da Ribeira de S. Simão surpreendem-nos os diversos açudes de xisto, obras de engenharia popular que vão resistindo aos séculos , proporcionando a existência de um vasto e fértil vale.
Duas surpresas aguardavam ainda os caminheiros: ao chegar à templária Montalvão ouve-se o ribombar dos Bombos de Nisa, outro grupo de jovens desta terra que em boa hora se juntou, estes em torno da música e de uma tradição que se julgava já perdida. Até os mais cansados ganham nova alma, entram na festa, tocam também, que a malta dos bombos é porreira. A outra surpresa, a cereja no topo do bolo: dois porcos assados no espeto, com mestria e bom tempero, pela mão dotada do meu amigo Babancas. Circulam pelas mesas as febrinhas dos ditos, acompanhadas por outras pérolas de uma gastronomia regional rica: cacholeiras, morcelas, linguiças e, como não poderia deixar de ser, pelo queijo de Nisa, tudo bem regado, que o bar era aberto. Soam os bombos, fazem-se os discursos da praxe, dança-se, há gente que parte a custo, outros vão ainda resistindo à partida e vai mais uma dança.
Uma palavra especial para um grupo também ele muito especial: seis companheiros da CERCI de Fafe, acompanhados de dois monitores, que caminharam sempre a bom ritmo, sempre de cara alegre, e que, no final tiveram ainda forças para tocar e dançar. Um exemplo para quem se afunda em pantufas e sofás, em tardes de modorrenta sensaboria.
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fotos: António Miranda

terça-feira, 13 de março de 2007

Rota do Contrabando


Por estes dias tenho andado muito ocupado. Para além dos meus afazeres normais, ainda tenho que conceder tempo extra à minha Associação (INIJOVEM), em grande azáfama na preparação da VIII Rota do Contrabando, um Percurso Pedestre Transfronteiriço em Travessia, que anual e alternadamente liga a Freguesia de Montalvão, no Concelho de Nisa, à localidade vizinha de Cedillo, da Diputación de Caceres, Espanha.
Terras da raia, as suas gentes não fugiram ao que parecia ser um destino inculcado na sua herança genética: a prática do contrabando. Destino ou a fuga à miséria, que de lá e de cá era da mesma cor, só as bandeiras eram de cores diferentes. À miséria de terras secas e agrestes juntou-se ainda, no caso dos do outro lado do Sever, a Guerra Civil, como se não fossem já suficientes os Cavaleiros do Apocalipse que os assolavam.
Cá como lá, ainda hoje se vislumbram os postos de vigia da Guarda Fiscal e dos Carabineros, hoje ao abandono, gente de dedo leve no gatilho e de atirar primeiro e perguntar depois.
Nos tempos em que a Barragem de Cedillo não tinha ainda sido construída, tanto os leitos do Tejo como do Sever eram de menor caudal e cota muito inferior. Por toda a sua extensão existiam vários "portos" (no sentido de entrada, um topónimo muito comum) e barcas.
Os "portos" e as barcas serviam gente em afazeres à luz do dia. Os viventes da madrugada calcorrevam trilhos que até as cabras evitavam, caminhos de xisto escorregadio e propício a dasabamentos, por entre estevas e carrasqueiros, um olho no caminho e outro nas sombras, pesada carga aos ombros ou à cabeça, a dificultar a travessia a vau dos rios, num caminhar desasossegado de coração de rola.
São esses os trilhos que agora buscamos. Num caminhar alegre de coração de pardal.

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imagem: José Carlos (excerto do cartaz do evento)

sábado, 10 de março de 2007

As malas de porão...


As malas de porão são asssim mesmo. Abrem-se para se encherem antes da viagem, abrem-se de novo no final desta. Depois permancem fechadas, refúgio de coisas que estorvam ou que num afã de esquilo guardamos, porque podem vir a servir no futuro. Coisas guardadas na penumbra da memória.
Depois, um dia, a nostalgia de rever velhos retratos que o tempo tornou sépia, ou a necessidade de mostrar a um filho o que era um cavalo de pau, fazem-nos abri-los de novo. No meu caso, foi a necessidade de rebuscar, num molho de cartas cintado com uma fita de cetim azul, a morada esquecida de velhos amigos.
Porque as malas podem permanecer fechadas, mas a amizade não - a amizade quer-se aberta e praticante.
Amigos, estou de volta.
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foto: inmagine