sexta-feira, 29 de julho de 2005

Ausência


Por estes dias vou fechar a mala. Não que a tralha, como dizia a Madalena, se tenha esgotado, mas porque outros valores se levantam.
Vai decorrer, entre 29 de Julho e 2 de Agosto, a Feira Regional de Artesanato, Gastronomia e Actividades Económicas da Vila de Nisa. Esta vila, não sendo a minha terra natal, acolheu-me como se do filho pródigo se tratasse e é meu dever retribuir, pelo que durante os dias da Feira estarei em trabalho voluntário na Associação de Juventude cá da terra.
Aqui fica o convite para visitarem esta bela vila do Alto Alentejo - Nisa, terra bordada de encantos!

terça-feira, 26 de julho de 2005

Para a Isabella...


Para a Isabella, em forma de agradecimento pelos postais que me avivam as memórias de Paris e trazem ao coração e aos lábios uma canção de Brel...

Les prénoms de Paris
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Le soleil qui se lève
Et caresse les toits
Et c'est Paris le jour
La Seine qui se promène
Et me guide du doigt
Et c'est Paris toujours
Et mon cœur qui s'arrête
Sur ton cœur qui sourit
Et c'est Paris bonjour
Et ta main dans ma main
Qui me dit déjà oui
Et c'est Paris l'amour
Le premier rendez-vous
A l'Ile Saint-Louis
C'est Paris qui commence
Et le premier baiser
Volé aux Tuileries
Et c'est Paris la chance
Et le premier baiser
Reçu sous un portail
Et c'est Paris romance
Et deux têtes qui se tournent
En regardant Versailles
Et c'est Paris la France
Des jours que l'on oublie
Qui oublient de nous voir
Et c'est Paris l'espoir
Des heures où nos regards
Ne sont qu'un seul regard
Et c'est Paris miroir
Rien que des nuits encore
Qui séparent nos chansons
Et c'est Paris bonsoir
Et ce jour-là enfin
Où tu ne dis plus non
Et c'est Paris ce soir
Une chambre un peu triste
Où s'arrête la ronde
Et c'est Paris nous deux
Un regard qui reçoit
La tendresse du monde
Et c'est Paris tes yeux
Ce serment que je pleure
Plutôt que ne le dis
C'est Paris si tu veux
Et savoir que demain
Sera comme aujourd'hui
C'est Paris merveilleux
Mais la fin du voyage
La fin de la chanson
Et c'est Paris tout gris
Dernier jour, dernière heure
Première larme aussi
Et c'est Paris la pluie
Ces jardins remontés
Qui n'ont plus leur parure
Et c'est Paris l'ennui
La gare où s'accomplit
La dernière déchirure
Et c'est Paris fini
Loin des yeux loin du cœur
Chassé du paradis
Et c'est Paris chagrin
Mais une lettre de toi
Une lettre qui dit oui
Et c'est Paris demain
Des villes et des villages
Les roues tremblent de chance
C'est Paris en chemin
Et toi qui m'attends là
Et tout qui recommence
Et c'est Paris je reviens.
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poema de Jacques Brel, do álbum "Marieke", 1961

segunda-feira, 25 de julho de 2005

Percursos à beira Tejo - III


Sementes lançadas ao vento, ou trazidas num voo de ave, germinam em secretos jardins no meio de aparentes desertos.
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foto: josé carlos

domingo, 24 de julho de 2005

Percursos à beira Tejo - II



Atravessei o rio para a outra margem, que os rios tanto separam quanto unem e a natureza não reconhece divisões administrativas, pelo que a paisagem se repete, beleza agreste e difícil de calcorrear, por isso maior o encanto de descobrir secretos jardins e memórias de antanho.
Nos finais do neolítico o meu antepassado irmão também percorreu estes trilhos, talvez não em busca de encantos mas certamente com igual deleite.
E também ele parou por um momento e registou a sua presença nestas terras. Eu com máquina fotográfica, ele com pedra de aresta dura, martelando suvemente o xisto macio, deixando nele as suas marcas.
Duas marcas, duas memórias ou o círculo que se fecha.
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fotos: josé carlos

sábado, 23 de julho de 2005

Percursos à beira Tejo - I


Percurso à beira Tejo, seguindo o velho caminho da sirga que parte da Barca da Ameira do Tejo. Arte e manhas de um povo a quem a dureza da terra deu engenho e talento para domar a natureza, à força de bagos de suor escorrendo de rostos tisnados e barrigadas de sopas de pão e ervas, ali onde o granito se funde com o xisto com o rio por testemunha. Ou a prova de que a necessidade é a mãe da invenção. E hoje, no tempo da omnipresente tecnologia, o gado morre de sede e o trigo mirra nos campos à míngua de àgua e o rio aqui tão perto...
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foto: josé carlos

quinta-feira, 21 de julho de 2005

Para que se não esqueça! - Parte IV

Quase imperceptivelmente o tempo vai aquecendo e uma madrugada sussurra-se por todo o navio, Chegamos, chegamos a áfrica, e todos se levantam para ver essa terra remota e estranha que lhes dizem também ser portugal e estar ameaçada. Ameaçada por um bando de pretos mal agradecidos, cães que mordem a mão do dono, de quem os tirou da barbárie e lhes levou deus e civilização, os turras. Cuidado com os pretos, dizem-lhes, Cuidado com os pretos, não lhes dêem confiança que qualquer filho da puta dum mainato pode ser um turra disfarçado, um espia. Se abusarem arreiem-lhes e cuidado com as pretas, são todas umas putas, animais com cio, cadelas saídas, ponham-se a pau com os esquentamentos.
E amanhece em áfrica e sobem a bordo cheirosas senhoras bem, piedosas senhoras bem, só os vestidos são mais leves e a pele mais morena, uma banda toca marciais marchas, desta vez não há lenços brancos a acenar, só os capacetes da polícia militar.
O corneteiro toca a formar, pelotão, companhia, desce-se o portaló do navio e gritam-lhes, Toca a despachar seus checas de merda, toca a subir para as berliets.
No cais não se reconhece ninguém.
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Eu não me lembro, não vivi a guerra, só sei de ir à escola e fugir para o rio e roubar mangas e papaias. Talvez não tenha sido bem assim, mas é assim que eu recordo as palavras dos que lá estiveram e me contaram. Do resto só sei o que li, porque os que me contaram, chegando aqui, puxam do baú da memória de velhas estórias de copos e putas e impalas abatidas a tiro de g3 e de súbito recordam o 29, O gajo de mangualde ou será que era de manteigas, O gajo era lixado para a paródia, uma vez íamos na picada e ..., e embaciam-se-lhes os olhos, embarga-se-lhes a voz e emudecem. E eu não insisto.
Talvez um dia, quando o peso dos anos e o tempo tiverem amainado a sua dor e sentirem necessidade de revelar aos seus netos o que aconteceu, talvez nesse dia me contem e eu então contarei, para que se não esqueça...
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foto: Centro de Documentação 25 de Abril - Universidade de Coimbra

quarta-feira, 20 de julho de 2005

Para que se não esqueça! - Parte III

Quanto dura a viagem, Um mês, dizem os lavradores sem enxada, riem-se os pescadores sem redes, mais feitos a estas coisas do mar, só o barco é maior que as ondas são as mesmas, Quinze dias com escala na madeira. Quinze dias de balanço, para cima e para baixo, para cima e para baixo, quinze dias de enjoo e diarreia, até todo o navio cheirar a merda e todos os homens cheirarem a vómito, suor e punheta, pela primeira vez irmanados oficiais, sargentos e praças, a outra será por entre o ondular do alto capim e os balanços do unimog, quando o medo for a causa da náusea e da diarreia, que todos nascemos e morremos do mesmo modo e nas misérias da carne todos os homens são irmãos. Para matar o tempo, que não é ainda tempo de matar, jogam-se intermináveis jogos, inventam-se maleitas, forjam-se acidentes, em tempo de guerra não se limpam armas, qualquer estratagema serve se o resultado dor baixar à enfermaria, ou, derradeira esperança, voltar a casa como inapto, ou tão só não ir para o mato, esse matos de que os velhinhos falam com mistério e sobranceria, Como é o mato, conte lá nosso primeiro, Vocês depois vêem, para se borrarem de medo já chega quando lá estiverem..
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continua...
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foto: Centro de Documentação 25 de Abril - Universidade de Coimbra

Para que se não esqueça! - Parte II

Meia-volta, volver, ordinário-marche, sobe-se o portaló do navio, niassa, vera-cruz ou outro qualquer, tanto faz, já se vai enchendo o bojo do monstro que vomita rolos de fumo cada vez mais grossos e negros, anunciando a partida. Nos conveses amontoam-se os corpos, luta-se por chegar à amurada, para se chegar a um último adeus aos que ficam.
No cais não se reconhece ninguém, só lenços brancos acenando, choros e gritos e ranger de dentes, e a banda que continua a tocar, e os capacetes brancos da polícia militar, ou serão mais lenços. Chegam a bordo as senhoras do movimento nacional feminino distribuindo cigarros e bentas imagens e aerogramas e apertos de mão, cheirosas senhoras bem, filhas de famílias bem, esposas fidelíssimas de senhores bem e mães extremosas de meninos bem a estudar em londres ou com adiamento de incorporação a beber bicas no nicola e a ler sartre. Piedosas senhoras bem comprando bilhetes de lotaria da taluda do reino do céu, anda à roda no dia do juízo final, E tu que fizeste minha filha, Distribui cigarros e bentas imagens e aerogramas e apertos de mão, senhor.
Larga amarras o navio afastando-se lenta e inexoravelmente de terra, adeus cais de alcântara, adeus ponte salazar, adeus farol do bugio, adeus, adeus, até ao meu regresso. Roncam mais forte as entranhas da nave, mais negro e expesso o fume que expele, entrando mar adentro, o mar salgado das lágrimas de mãe que o poeta cantou.

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continua...

foto: Centro de Documentação 25 de Abril - Universidade de Coimbra

terça-feira, 19 de julho de 2005

Para que se não esqueça! - Parte I

São de toda a parte, de remotos lugares esquecidos de deus e dos homens, pequenos pontos negros no mapa da nação que os chama a defender o império, angola é nossa, portugal do minho a timor. Ao longe todos iguais, pescadores sem redes, lavradores sem enxada, mole esverdeada encurralada entre o rio e as grades e a polícia militar e a banda que toca marciais marchas para elevar a moral.
Boina castanha cobrindo o cabelo rapado, mochila às costas, cigarro nervoso queimando as pontas dos dedos, sorriso forçado para benefício dos que ficam, mãe, pai, namorada, amigos. Não chore mais minha mãe, vai ver que não me acontece nada, Leva este santinho que o senhor abade benzeu, não te esqueças de rezar o terço e que deus te proteja e guarde meu filho, Espera por mim meu amor, quando voltar casamos, Promete que me escreves todos os dias e vê lá não me esqueças tu, Cuide das vacas meu pai, Dá cá um abraço rapaz, Adeus rapazes, vocês tiveram sorte, Sorte tens tu pá, dizem que as pretas se pelam por um branco e são boas como o caraças.
O corneteiro toca a formar, pelotão, companhia, ao longe discursa uma farda, pelo menos parece só uma farda, não se vê o homem dentro dela, só o faiscar das medalhas e o dourado dos galões. Os altifalantes gritam palavras, valorosos infantes, dom afonso henriques, dom nuno álvares pereira, os valentes de mouzinho, os heróis de la lys, pátria, nobre missão, se necessário com o sacrifício da própria vida.
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continua...
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foto: Centro de Documentação 25 de abril - Universidade de Coimbra

segunda-feira, 18 de julho de 2005

Bayete Mandela!


"Lutei contra o domínio branco e lutei contra o domínio negro. Acarinhei o ideal de uma sociedade democrática e livre, onde todas as pessoas vivam juntas em harmonia e igualdade de oportunidades. É um ideal para o qual espero viver e atingir. Mas, se necessário, é um ideal pelo qual estou preparado para morrer."
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Não foi o único. Mas foi o rosto de uma luta que ainda não terminou. Sofreu na pele o flagelo do apartheid sem esmorecer. Libertado, foi presidente da RSA e soube sair coberto de honra e glória, sem cair na tentação de se agarrar no poder como tantos dos seu congéneres africanos. É a todos os títulos um senhor, alguém que respeito profundamente.
Nelson Mandela faz hoje 87 anos. Bayete baba Mandela!!!
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Monotonia


Em silêncio despertei,
tomei banho e me vesti,
o autocarro esperei,
ordeiramente subi
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Como é norma fui de pé,
aos safanões, apertado,
tomei a bica sozinho,
paguei, saí apressado
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Em silêncio trabalhei,
minuta, requerimento,
à hora certa almoçei,
descansei por um momento
.
Arrumei a papelada,
saí à hora usual,
desci correndo a escada,
como é habitual
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Em silêncio regressei,
repetindo a manhã,
troquei de roupa, jantei,
liguei o pequeno ecrã
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Dei corda ao despertador,
ouvi uma melodia,
puxei mais o cobertor,
amanhã é outro dia.
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foto: inmagine

sábado, 16 de julho de 2005

Uma vez mais embarquei no sonho antigo.



Uma vez mais embarquei no sonho antigo,
na carne ainda em chaga feridas recentes,
peito aberto me relancei contra o perigo,
por armas só minhas mãos nuas e quentes.
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E outra vez brava e feroz foi a refrega,
sem quartel, sem tréguas nem rendição,
total entrega, sem razão, vontade cega,
por temores só um presente, o da traição.
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Uma vez mais exangue e ferido sucumbi,
joelho por terra, após final e cruel estocada,
no rosto escrito o sofrimento que vivi,
na alma a ferro em brasa a dor marcada.
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E outra vez do rúbeo solo me ergui,
Corpo em feixe, da peleja mal refeito,
cedo esquecido de tudo o que padeci,
para de novo buscar sublime feito.
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foto: Inmagine

Viva a República!



Nasci e cresci na República. Quando tive consciência do que isso significa, e comparativamente com outros tipos de estado, afirmei-me alto e bom som republicano. Existe no entanto quem ache que estaríamos melhor servidos com uma Monarquia, sendo que a maioria dos que são desta opinião defendem a realização de um referendo e propõem para rei Duarte Pio de Bragança, haja embora que lhe dispute o putativo direito a uma hipotética coroa.
Este cidadão é comummente tratado por Dom Duarte. Pois eu não lhe reconheço o Dom nem o dom de reger os destinos de um país. O Dom é um anacronismo que não entendo e atentemos nas pérolas de sabedoria que debitou ao jornal "O Independente" a 15 deste mês para vermos o porquê de não ter o dom da governação:
- "Os bombistas podem ser muitas coisas mas cobardes não são."
- "Numa sociedade livre, ninguém tem o direito de proibir uma mulher de vender serviços sexuais. Por outro lado, existem muitas formas de prostituição aceites pela sociedade, como a secretária que tem relações sexuais com o patrão e recebe algo em troca."
- "Não me sinto rei de Portugal. Mas, em certa medida, sinto-me rei dos portugueses."
Pois senhor Duarte, pela parte que me toca considere-se desvinculado desse sentimento. Não por estas citações, mas por todas as outras pérolas que já proferiu e certamente continuará a proferir.
A ter um imbecil por governante prefiro um eleito por mim, o que fará de mim outro imbecil, mas que posso substituir se me não convier e não me é imposto por direito divino ou outro motivo similar.
E viva a República!

Uma Avó.


Era uma vez uma anciã a quem muitas noites de luar tinham embranquecido os negros cabelos da juventude. Essa senhora tinha um neto e esse neto um amigo. Só assim, um amigo, porque os amigos não necessitam de adjectivos. O neto visitava amiúde a avó, e sempre que o fazia, o amigo acompanhava-o. Como boa avó que era, e apesar de o neto ter já entrado na casa dos trinta anos, sempre que havia visita, entregava-lhe uma nota para "beber qualquer coisa na viagem", como ela dizia. O amigo era recebido como se da casa fora, com franqueza e carinho,
E um dia, a avó virou-se para o amigo e disse-lhe: - Toma, esta é para ti.
O amigo recusou, que ideia, não era próprio, não era necessário. Afinal, o vencimento mensal do amigo ultrapassava em várias vezes a magra reforma da avó.
A avó insistiu, o amigo contrapôs que não era seu neto, que não se justificava, e ela continuava a insistir.
Para não ofender uma ancião orgulhosa na sua modéstia, aceitou. E desde então, sempre que encontrava a anciã, dela recebia primeiro um carinhoso beijo e um abraço, dados com um sorriso no rosto enrugado e a expressão "Olha o meu neto Zé!" e na despedida a respectiva nota "para a viagem"
Esse amigo era eu e a anciã a minha Tá Rosaira (Rosário). A Tá Rosaira foi hoje sepultada, aos 94 anos de idade, eu perdi uma avó que me adoptou e escrevo esta simples homenagem de lágrimas nos olhos.

quinta-feira, 14 de julho de 2005

Ilusão de Óptica


Eu vinha como um homem
que chega e já parte
que já teve noites de tormenta
e madrugadas sedentas
e dias vividos com todos os medos
assim eu vinha quando aconteceu
e durante um breve momento
suspenso no ar como os albatrozes
acho que fitaste os meus olhos
e moveste os lábio vivos e frescos
como se fosses dizer alguma coisa
ou seria o ângulo de incidência do sol
e tudo não passou de uma fugaz
e sedutora ilusão de óptica
foto: José Carlos

quarta-feira, 13 de julho de 2005

Metáfora


Metáfora sobre o Outono e a Vida, alto relevo em tons de castanho à beira-mar, no pressuposto de que uma imagem vale mais que mil palavras.
Poesia feita fugaz momento retratado, enquanto outra onda não chega e lava o areal, que o mar é pragmático e o mundo não cessa de girar só porque um fotógrafo se enamorou de um instante no tempo e no espaço.
foto: José Carlos

terça-feira, 12 de julho de 2005

Ícaro


Construí a vida que tenho por sobre os escombros de sonhos desfeitos. Como as novas civilizações que constroem por sobre os escombros das que as antecederem.
Aí como em mim é preciso escavar camada após camada, isolar substrato por substrato os vestígios de antanho. Aí como em mim encontram-se fragmentos de coisas que um dia foram úteis ou belas ou tão só frívolos adornos. Restos de vidas passadas, restos de gentes passadas, restos de sentimentos passados.
Como se constrói sobre os escombros muitas vezes ainda envoltos na núvem de pó da derrocada recente? Como se consegue calcar o chão e seguir em frente?
Digo-vos como. Só existem dois modos: com a cegueira da força ou com a força da cegueira - somos fortes e isso faz-nos avançar como se o amanhã não existisse ou fechamos os olhos e deixamo-nos ir sem medos porque não vemos os obstáculos que se atravessam à nossa frente.
Repetidamente somos larva, ninfa e borboleta. Nascemos e morremos mil vidas numa só.
Somos Ícaro num incessante refazer de asa.


foto: José Carlos

segunda-feira, 11 de julho de 2005

Quando for grande quero ser jornalista!


Acabo de ver aqui o vídeo de Diana Andringa sobre o célebre e malfadado "arrastão", perdão, pseudo-arrastão, aliás, pseudo-não-sei-o quê. De arrastão a traneira e daí a barquinho do Campo Grande foi um ápice!
E caramba, quando for grande quero ser jornalista!
Goste-se ou não da jornalista Diana Andringa (e eu gosto), critique-se ou não o meio de que se serviu para dar voz às suas opiniões, tenha este vídeo ou não fins puramente políticos, estou-me olimpicamente borrifando para o assunto e chego sempre à mesma conclusão: que grande peça jornalística, das poucas verdadeiramente dignas desse nome no meio do aparente ensadecimento colectivo dos media portugueses ( a silly season é como a Páscoa, tem data flutuante - a deste ano já começou?).
Estou ansioso por ver o debate que o Clube de Jornalistas vai organizar.

Pegadas


Cheguei de madrugada como os malfeitores, de gola levantada sobre a nuca, o olhar furtivo, a andar passos de gato. O sussurro do vento segreda-me rebates de consciência enquanto caminho pela praia deserta: - Não vás, não vás, não vás...
Estou de volta à praia onde tomei o meu último banho da meia-noite, o banho que lavou os últimos resquícios da minha inocência. Nessa outra madrugada dei e recebi.
Hoje sigo de tronco inclinado para a frente, punhos fechados, a saborear o gosto salgado da névoa que me envolve.
De mãos vazias, de mãos há muito ocas de sentir, há muito frias do calor de outro corpo.
Qe me trouxe o alvorecer dessa outra madrugada? Um nome, um número de telefone, uma morada, escritos numa agenda a lápis, debaixo do título "Férias-80", na página a seguir a "Férias-79" e a outros nomes que já não lembro, a outros telefonemas que nunca fiz, a outras cartas que nunca escrevi.
E hoje regressei depois de muitos verões.
- Não vás, não vás, não vás...
É novamente o vento ou a memória de palavras ditas baixinho e que a areia em que fizeram sua cama repete como um eco?
Mas eu fui. E agora, o que me sobra?
Sobram as deléveis pegadas que marcam o areal a que dou costas e me perseguem com a tenacidade da sombra.
foto: José Carlos

Se tu fores ver o mar (Rosalinda)



Se tu fores ver o mar (Rosalinda)

Rosalinda
se tu fores à praia
se tu fores ver o mar
cuidado não te descaia
o teu pé de catraia
em óleo sujo à beira mar (...)
Poema: Faústo
Foto: José Carlos

domingo, 10 de julho de 2005

Apelo


O capricho dos deuses
e o mar revolto
atiraram-me náufrago
para a ilha solitária
que a ninfa habita
divina e perfeita
tecendo e destencendo
a sua enredante teia

da minha humana condição
me vou esvaindo
quero a fuga urgente
resgatem-me, libertem-me
quero o erro e a dúvida
quero a desgraça e o precipício
quero a dor e a morte
quero a humanidade

foto: José Carlos

sábado, 9 de julho de 2005

Amigos


Os amigos são a família por nós escolhida. Nada nos é imposto: conhecemo-los e aceitamo-los como são. E não é que do mundo virtual surgem amigos reais?
A esses novos amigos quero agradecer a força e o ânimo que me deram para começar esta viagem. É por eles que espero para me acompanharem nesta viagem, para embarcarem a bordo sempre que possível. O portaló estará sempre disponível.
Muitos são os amigos, mas para alguns vai um agradecimento especial:
- Isabella, a tua Chuinga estará sempre no bolso de trás do meu calção de mufana, juntinho à fisga;
- Gil, o teu Xicuembo protege-me;
- João, a tua Água Lisa lava a minha alma;
- Madalena, contigo choro e logo bebo nova inspiração;
- Mitsou, as tuas Tijolices são parte dos meus alicerces;
- Ni, na tua Praia espero novas marés;
- Zé Paulo, no Sem Técnica aprendo a tàctica;
- Théo, a tua Sebenta é a minha cábula;
- Sãozinha, a tua poesia faz-me sorrir quando estou cinzento.

"...e é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se, come-se e alguém nos diz bom proveito..."

Sérgio Godinho

a nau está de partida

A nau está de partida. A maré está de favor, o vento propício, o sol brilha no horizonte para me orientar e à noite a Estrela Polar será o meu guia.
Inicio a viagem sozinho, só com uma mala de porão. Não sei onde e quando serão as escalas, muitos menos o destino. Na mala levo o essencial, coisa pouca, memórias quase só. Pelo caminho chegarão amigos, com novas ideias, emoções, notícias. E com isso a mala ir-se-à compondo....

foto: INMAGINE